Quinta, 14 de Maio de 2026
Saúde Cirurgia

Hospital Mater Dei Goiânia realiza cirurgia cerebral inédita com ressonância magnética intraoperatória e paciente acordado

Procedimento permite acompanhar funções cerebrais em tempo real durante a retirada do tumor e amplia a segurança em áreas sensíveis do cérebro

22/04/2026 09h29
Por: Redação
Hospital Mater Dei Goiânia realiza cirurgia cerebral inédita com ressonância magnética intraoperatória e paciente acordado

Uma cirurgia cerebral realizada no Hospital Mater Dei Goiânia chamou atenção pela técnica utilizada durante o procedimento. Diferente do modelo tradicional, em que o paciente permanece sob anestesia geral e os exames de imagem são feitos apenas após a operação, desta vez parte da cirurgia aconteceu com o paciente acordado e com ressonância magnética realizada ainda durante o ato cirúrgico.

A estratégia foi adotada para aumentar a precisão na retirada de um tumor localizado em uma área sensível do cérebro, ligada diretamente à linguagem, raciocínio e outras funções neurológicas importantes.

O procedimento foi conduzido pelo neurocirurgião Rafael Pereira Monteiro e foi a primeira cirurgia deste tipo realizada na unidade hospitalar.

Cirurgia cerebral com paciente acordado permite maior precisão

O diagnóstico inicial apontava para um astrocitoma difuso do adulto, de baixo grau, um tumor cerebral primário que se desenvolve no próprio tecido cerebral. A lesão estava localizada na região medial do lobo parietal esquerdo, próxima ao centro do cérebro, uma área considerada delicada por estar relacionada à fala, escrita, compreensão e raciocínio.

Segundo o especialista, esse tipo de tumor apresenta crescimento lento e comportamento infiltrativo, o que dificulta a separação entre o tecido saudável e o tecido comprometido.

“Não há uma diferença clara entre o tecido doente e o tecido cerebral saudável, mesmo com o aumento do microscópio cirúrgico”, explicou.

Por isso, a decisão de manter o paciente acordado em parte do procedimento foi fundamental para permitir o monitoramento das funções cerebrais em tempo real.

Durante a cirurgia, a equipe aplicava estímulos elétricos em áreas específicas do cérebro enquanto a neurofisiologista Monica Melo realizava testes neuropsicológicos com avaliação de fala, compreensão, motricidade e raciocínio.

“Se durante o teste não havia alteração, a gente podia retirar aquela parte do cérebro com segurança. Se houvesse qualquer mudança, a gente preservava a área para evitar déficit permanente”, afirmou o médico.

Ressonância magnética durante a cirurgia ajuda na retirada do tumor

Outro diferencial foi o uso da ressonância magnética intraoperatória. Após uma etapa da retirada do tumor, a cirurgia era pausada e o paciente realizava o exame de imagem ainda dentro do procedimento.

A partir do resultado, a equipe decidia se era necessário continuar a retirada ou encerrar a operação.

“Quando o cirurgião acredita que retirou toda a lesão, fazemos a ressonância. Se o exame mostra que ainda existe tumor residual, voltamos e continuamos. Se não houver mais lesão, encerramos a cirurgia”, explicou Rafael Pereira Monteiro.

Segundo ele, a combinação entre paciente acordado e ressonância intraoperatória permite alcançar um equilíbrio entre a retirada máxima do tumor e a preservação da qualidade de vida.

“Queremos retirar toda a lesão, mas às vezes ela está em uma área nobre, em que a retirada pode causar déficit neurológico importante. Nesses casos, preservamos essa região. Esse é o conceito de balanço onco-funcional”, destacou.

Técnica reduz risco de sequelas e evita deslocamento para outros centros

De acordo com o neurocirurgião, a quantidade de tumor retirada influencia diretamente no prognóstico do paciente. Quanto maior a remoção segura da lesão, maiores as chances de sobrevida e menor a necessidade de tratamentos complementares, como quimioterapia, radioterapia ou terapias-alvo.

Sem esse acompanhamento em tempo real, os riscos de sequelas permanentes, principalmente relacionadas à linguagem e à mobilidade, seriam significativamente maiores.

A cirurgia também exigiu uma grande mobilização hospitalar, com participação integrada de equipes de neurocirurgia oncológica, anestesia, neurologia clínica com foco em neurofisiologia intraoperatória, radiologia e profissionais do centro cirúrgico.

“É uma mobilização grande. Todo mundo precisa estar alinhado, porque envolve deslocamento do paciente, equipamentos e sincronização entre as equipes”, relatou.

Para a equipe médica, o caso representa um avanço importante na estrutura hospitalar da capital e mostra que procedimentos considerados padrão em grandes centros nacionais e internacionais já podem ser realizados em Goiânia.

“Essa é a mesma cirurgia feita em grandes centros. Hoje conseguimos oferecer esse tipo de tratamento aqui, sem que o paciente precise sair da cidade para buscar esse recurso”, afirmou o especialista.

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